A fermentação
Quando a uva ganha vida
Depois da pisa eda prensagem começa uma transformação invisível, mas impressionante: osaçúcares da uva transformam-se em álcool. Leveduras microscópicas consomem naturalmente a glicose e a frutose do mosto e produzem sobretudo etanol edióxido de carbono. A cuba aquece, cria espuma, liberta CO₂ e pode dar aimpressão de estar literalmente a ferver.
Nos vinhostintos, películas, grainhas e, por vezes, engaços permanecem durante algumtempo em contacto com o sumo. O gás empurra estas matérias para a superfície,formando o chamado “chapéu”, que deve ser vigiado e mantido em contactocom o líquido. É durante esta fase intensa que se desenvolvem a cor, os taninose parte dos aromas do futuro vinho.
Em 1890: deixar acontecer… mas saber observar
Durante séculos,não se adicionavam leveduras selecionadas: a fermentação começava espontaneamente, graças aos microrganismos presentes nas uvas e no próprioambiente da adega. Diferentes leveduras sucediam-se até que as mais resistentesao álcool acabavam por dominar o processo.
Mas, em 1890,este fenómeno já não era completamente misterioso. Os trabalhos de Louis Pasteur, publicados nomeadamente nos seus Études sur le vin, de1866, tinham demonstrado que a fermentação era provocada por organismos vivos eque outros micróbios podiam, pelo contrário, causar doenças no vinho.
Alguns produtosjá eram utilizados, mas geralmente não para iniciar a fermentação. Oenxofre, usado há muito tempo nas adegas, servia sobretudo para proteger osrecipientes e limitar certas alterações microbianas. As primeiras experiênciascom culturas puras de leveduras surgem precisamente por volta de 1890,abrindo caminho à enologia moderna.
A fermentação era natural, mas o seu sucesso não dependia apenas do acaso. Temperatura da cuba, cheiro, espuma,intensidade da libertação de gás, sabor do mosto: antes dos instrumentosmodernos, o mestre de adega aprendia a interpretar todos estes sinais. Era aquique a química da vida se encontrava com o saber empírico do vinho.